A copa na rua

A copa na rua.

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A copa na rua

Agora é oficial, está tendo Copa. Na minha rua, desde a semana passada, bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas sobre todas as cabeças não deixam dúvida. Ontem, dentro da melhor tradição comunitária bexiguenta teve churrasco, cerveja, telão, música e a vizinhança vestindo camiseta “ Arrocha na Copa”. O Bexiga dispensa apresentação mas a Rocha, pra quem não sabe, é sua perfeita tradução. Aqui a boemia resiste misturando descendentes dos pioneiros quilombolas e dos artesãos italianos,cozinheiros nordestinos, bailarinos, cantores, atrizes, pintores de quadros e paredes, engenheiros, garçons, vendedores, contadores,advogados, estudantes, gringos de passagem e encalhados – ou seja- tem de tudo e mais um pouco. Nem mesmo a gentrificação no centro de São Paulo promovida pela ganância imobiliária descaracterizou a rua. Enquanto nas ruas ao redor, casas caíram para dar lugar aos horrorosos edifícios que fazem a alegria e atestam os inexplicáveis orgulho e deselegância da classe media paulistana, na Rocha resistem os sobrados espaçosos dos artífices calabreses, os prédios de 2 e 3 andares dos empreiteiros portugueses dos anos 40 e 50. Não falta, diga-se a verdade, alguns exemplares do que há de mais feioso em matéria de verticalização. Espetos de concreto e vidros espelhados, fachadas com arremedos de varanda, ecos do famigerado estilo mediterrâneo modernoso reproduzindo na paisagem a arquitetura da mistureba social.E nem tente descobrir, bebendo nos bares autênticos pé-sujo, quais os assalariados de mil reais e os patrões com renda de vinte mil ao mês aqui a ostentação não é bem vinda, A militância de esquerda congrega-se ao pastor da igreja pentecostal e faz mutirão de plantio de árvores. Criança anda de bicicleta e joga bola na calçada, os velhinhos vão ao parquinho jogar dominó, as velhinhas fazem ginástica na praça. É tudo junto e misturado, ninguém é de ninguém e todo mundo tem defeito – visto que é tudo gente. Aqui não vale o mimimi do Levy Strauss que disse que antes de ser civilização viramos ruína. Somos metamoforse ambulante e resistente, Caetano não é o tal e Raul Seixas nos representa.

A abertura da Copa foi só alegria. Vibração com a goleada em cima da coreógrafa belga, vergonha alheia do padrão FIFA, os gringos mais revoltados do que os artistas com a falta de noção de quem dispensou o expertise nacional em festa. Mas quem é que resiste à Aquarela do Brasil? Olha isso, cê tá chorando colega?  Ah, tá valendo gente, foda-se a abertura, o nosso negócio é gol. Trabalhados na adrelina, ficamos todos Marcelo sem perder a ternura: não era pra receber bem os estrangeiros ? Toma aí um gol de lambuja que aqui não tem miséria. Nem Galvão Bueno. A imagem foi padrão digital mas as caixas de som eram caseiras, quem não falava, tocava corneta ou soltava rojão. Querendo mudar de comentarista era só trocar de lugar. “ Pelamordedeus, que esse goleiro da Croácia é um gato, hem? Só o goleiro, minha filha ? Quequéesse puta time de gostosos, hem?”. Péeeeem. “ Vai Neymar!” “ Cala a boca, Galvão”. Péeeem. “ Quer guaraná, Tiaguinho?” Goooooooool ! Pow. Pow. “O jap é nosso ! “. Pow, pow “ Gol roubado o cacete, foi gol devolvido, esse aí é o mesmo fulano que nos roubou a taça, tá esquecido?”. “ Corre aí, moleque, que eu marquei quatro no bolão!” Péeeem. Goooooool. Pow.Pow. ” Os meninos vão amarelar, estão na Seleção, na Copa, ainda por cima, no Brasil?! Amarelam nada. Olha aqui, sabe o que eu fazia? Trazia o equilíbrio emocional deles com dois tapas na cara. Relaxa que isso o Felipão sabe fazer!!”. Goooooooool. Pow. Pow.“ Gente, cadê o Fred? O cara parece que não foi!!”. Péem, péem. “ Aí, Carlão, vem pegar seu espeto de liguiça porque já tá acabando, depois vai reclamar.”Péem, péem. “ Agora dá o apito logo de uma vez. Três a um está bom demais! “. Pow, pow.

Terminada a festa, cadeiras empilhadas, retiradas as escadas e vasos que bloqueavam o trânsito, as crianças recolhidas para tomar banho antes de subir pra jantar,  pergunto a um mano que manja dos paranauês do lado rico da Paulista – que fez da área Vip do Itaquerão seu poleiro.

– E aquele coro de vai tomar no c * , hem, que é que você achou ?

– Ah, isso aí é muito pó na cabeça, batizado ainda por cima, essa playboyzada não têm a manha nem de escolher fornecedor. – E deu uma gostosa gargalhada.

Pensei: menos mal Já estava planejando pedir desculpas ao Brasil, em nome dos paulistanos gente fina que conheço. Que nada têm a ver com esta São Paulo que deu demonstração de grosseria explícita ontem. Eles até que nos representam mas são a minoria. A área vip estava cheia daquele tipo de gente que atropela ciclista e joga o braço no rio, gente que pega empreitada de construção na Av. Paulista e deixa os empregados sem condição digna nenhuma presos no alojamento, gente que privatiza metrô cujas obras fazem crateras que engolem caminhões e matam pedestres, gente que privatiza a água do Estado e esconde que está fazendo racionamento só por interesse eleitoreiro, gente que acha certo colocar fogo em favela porque não respeitam nem os miseráveis que os servem, gente que apoia operação de guerra da Polícia Militar contra 1800 famílias e a favor do Naji Hahas. A área vip, com seus ingressos de 1000 reais estava ocupada pela minoria que estuda em colégios com mensalidades que ultrapassam o dobro da média da renda mensal de 80% dos paulistanos mas não tem educação. É por causa delas que o Criolo disse que não havia amor em São Paulo. Mas é menos verdade. Eles são aquela parcela minúscula de donos de prédios mantidos fechados sem pagar impostos só para ganhar dinheiro na especulação – e por isso o presidente da Fiesp entrou no STF pra evitar a reforma do IPTU paulistano. Infelizmente são também os manda chuvas embora , por causa deles, provavelmente não haja copo d´água depois de outubro e estejamos, no momento, bebendo a água do fundo da represa, chamada volume morto. Eles também são donos dos jormais e Tvs , sabem ? Por isso produzem muitas imagens do que seria São Paulo sendo apenas espelho da sua cara truculenta, grosseira, racista, xenófoba, classista e mau humorada.

Agora vocês já sabem porque a USP e todas as Universidades Paulistas estão em greve. A vida para quem tem educação e usa o cérebro está bem difícil em São Paulo. Com ou sem Copa.

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Uma resposta para “A copa na rua

  1. carmen mascarenhas

    Ana Souto, menina vivente da Rocha! Amei! Lindo!

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